07-08-2009
Treinamento

O longe é logo ali

 

O portoalegrense Alessandro Dreyer, 25 anos, descobriu a diabetes em 2007 e a partir daí decidiu mudar sua vida e seus hábitos alimentares.  Passou a integrar o grupo de corredores Diabetes & Desportes e em 2008 disputou a sua primeira maratona. Hoje carrega no currículo a Cruce de Los Andes, a maratona que tem início no litoral chileno, atravessa a Cordilheira dos Andes e chega em San Juan, na Argentina. Conheça, através desta entrevista ao Correndo com Saúde, um pouco da história deste atleta que também é autor do blog “O longe não existe”.
 
Correndo com Saúde - Como foi teu começo no mundo das maratonas? O que te motivou a correr?
Alessandro Dreyer - Sempre pratiquei esportes desde a infância, cheguei a jogar futebol e participar da equipe de corrida do colégio que eu estudava, mas nunca tinha seguido planilhas de treinamento programadas. Fui entrar para o mundo das corridas definitivamente em 2007, quando eu já tinha 23 anos, uns meses antes da Rústica de Porto Alegre eu e uns amigos fizemos uma aposta de quem participaria da prova e qual faria o melhor resultado, treinei durante 2 meses e meio e fiz meu primeiro 10k no dia 27 de maio de 2007, além de ganhar a aposta, decidi seguir com os treinos. Continuei correndo, porém sem traçar objetivos a longo prazo, mas por coincidência, em julho de 2007, descobri que era diabético, foi quando um grande amigo e incentivador das minhas corridas, o Claudio Ramires, me falou a seguinte frase que levo comigo até hoje "Com o diabetes tu terá alimentação de atleta, aproveita pra levar vida de atleta e te torna um". Desde então, tenho treinado sempre buscando provas maiores, fazendo minha estreia em maratonas em maio de 2008, exatamente um ano depois da minha primeira 10k.
 
CS- Como concilia a vida profissional e a prática das corridas?
AD- Como minha profissão exige uma carga horária um pouco diferente, procuro fazer meus treinos antes de trabalhar (por volta das 7 da manhã) ou durante o horário de almoço. Desta forma não corro risco de perder treinos por compromissos profissionais e também não chego cansado do trabalho para o treinamento.

CS- Pelo fato de ter diabetes, teus treinos são diferenciados? Você tem um treinador que te acompanha?

AD- O treino de fato não é diferente, mas preciso fazer uma monitoração continua da glicemia, antes, durante e depois dos treinamentos. A monitoração é importante pois uma hipoglicemia pode me fazer abandonar uma prova, já a hiperglicemia pode me desidratar e prejudicar o rendimento. Atualmente meus treinamentos são acompanhados pelo Eduardo Schutz, da equipe Perfect Run.

CS- Como é tua alimentação?

AD- Minha alimentação é extremamente balanceada, além de fazer uma contagem minuciosa de carboidratos já que meu corpo não produz insulina. Além disso, dou preferência para os carboidratos integrais (complexos) pois o corpo demora mais para "quebrá-los" e consequentemente aproveito melhor a energia deles.
 
CS- Você participa de algum grupo de corredores com diabetes? Como é o intercâmbio com outros corredores com diabetes?

AD- Faço parte do grupo de corredores Diabetes & Desportes que é formado por atletas espelhados por todo Brasil, trocamos diversas informações por e-mail buscando um maior conhecimento da enfermidade. Além disso, participo também do projeto Bandera al Cielo que consiste em mostrar para as pessoas que a Diabetes não nos impede de realizar qualquer tarefa. Este grupo é formado por brasileiros, argentinos, mexicanos, uruguaios e chilenos e participa de provas por toda a América Latina.

CS- Qual foi a maratona mais interessante que você já participou?
AD- Maratonas sempre são interessantes, mas minha prova inesquecível com certeza é o Cruce de Los Andes, onde 12 pessoas dividem um percurso de 504km (42km por atleta), saindo do litoral chileno, atravessando a Cordilheira dos Andes e chegando em San Juan na Argentina. Completei esta prova em fevereiro deste ano (2009) com uma equipe composta por 12 atletas diabéticos.

CS- Você correu a Maratona de Cruce de Los Andes (42 km 195m) onde enfrentou largada a 1.600m de altitude e chegada a 2.900m. Nos conta um pouco sobre esta experiência.
AD- Correr em um lugar como este é emocionante, só por cruzar a Cordilheira dos Andes a prova já mostra que é única. Além disso, ela tem inúmeras particularidades, como a corrida durar três dias seguidos, o horário da largada de cada grupo de atletas é diferente, o meu foi às 4horas da manhã, comecei a correr ainda durante a noite e o regulamento não permite o uso de lanterna. Para evitar a total penumbra, a organização sempre faz a prova durante a lua cheia, então correr durante a madrugada, entre as cordilheiras, só com a luz da lua, ver o dia amanhecer entre as cordilheiras, todas estas sensações em poucas horas, durante uma prova apenas, fizeram esta prova se tornar inesquecível. Além disso tudo tinha a altitude, eu não senti os efeitos dela, mas senti outro problema das cordilheiras, o frio. Pouco depois da metade da prova meu joelho endureceu por causa do frio e do impacto e minhas mãos congelaram, mas nada que impedisse de completar os 42km.

CS- Quais são as mudanças que você pode perceber na sua saúde depois de se tornar um maratonista?

AD- Desde que comecei a correr tudo melhorou, qualidade do sono, alimentação e concentração, esses três fatores mudam nossa qualidade de vida absurdamente.

CS- Quais são as maiores dificuldades?

AD- Treinamentos para este nível de prova sempre são desgastantes e essa é maior dificuldade, porque depois do treino não tenho muito tempo para descanso, preciso ir para a segunda jornada do dia e encarar horas de trabalho.
 
CS-Você tem algum ídolo neste universo das maratonas, alguém que você admire?
AD- Meu maior ídolo não é um maratonista, mas sim um ciclista, o americano Lance Armstrong que venceu diversas vezes o Tour de France além de derrotar um câncer, voltar a competir e vencer novamente o Tour mesmo sendo considerado um ex-atleta depois da doença. Além dele me inspiro também em Dean Karnazes (maior ultramaratonista da história).

CS- Quantas maratonas você já participou?

AD- Participei de três maratonas, Porto Alegre 2008, Punta del Este 2008 e o Cruce de los Andes 2009.

CS- Mesmo com diabetes, você busca atingir desafios. Qual é a mensagem que você deixa para as pessoas com esta ou outras doenças? Geralmente as pessoas pensam: “eu sou doente e não posso fazer isso ou aquilo”, o que você tem a dizer sobre isso?

AD - Não considero Diabetes um fator limitante, preciso apenas adaptá-lo a minha vida. A mensagem que deixo para as pessoas é um plágio que ouvi de um grande atleta, amigo e também diabético, o Marcelo Bellon que tem diversas maratonas, ultras e 10 IronMan na carreira: "Tu não precisa adaptar tua vida ao diabetes, adapta a diabetes a tua vida". Essa mensagem serve para qualquer doença ou limitação e não só para o esporte, adapta o problema a tua vida, nunca tua vida ao problema.

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