| 05-11-2009 Treinamento Desafio Nike 600k SP - RJ
Percorrer 600 km, mesmo em um revezamento, é mais do que um desafio. É algo que envolve projeto, ação, vontade, insanidade, dor, força, emoção, logística, saúde, dentre n outros fatores que não cabem neste texto. Para a Nike, tudo começou em março, mas para mim tudo começou no dia 17 de setembro, quando o Daniel Neves, da Nike, me telefonou convidando para fazer parte da equipe Mulheres Nike no Desafio 600K. Eu mal sabia do que se tratava, pois não fora convidada para a seletiva em Porto Alegre; nem por isso neguei o convite. Além de mim, a equipe contaria com as super corredoras de elite Maria Cristina Vaqueiros (abaixo de 34min nos 10km), Débora Ferraz e Maria das Graças (ambas reservas), além das irmãs curitibanas triatletas Luca e Yana Glaser e as meninas de São Paulo, das longas provas de aventura: Camila, Fuca, Belô, Shuby, Marcela e Sabrina. No dia 21 de outubro, cheguei em São Paulo. Pra começar bem, saí do aeroporto numa carona com o Franck Caldeiras, direto para o Congresso Técnico no Hotel Mercure, onde os atletas foram instalados na 1a noite. Ali deu pra notar que a coisa toda era muito profissional: das 17h às 21h os atletas receberam explicações sobre a prova, desfrutaram de um coquetel incluindo jantar de massas, trocaram figurinhas e receberam uma mochila contendo o 2º kit da corrida que, para as mulheres, era composto por calça, jaqueta, tops, viseira, chip, número e regattas para o 1º dia (2 regatas para cada dia de corrida). O 1º kit havia sido entregue anteriormente, para que pudéssemos treinar, consistindo de uma mala com 3 tênis, sportband, meias, boné, calção. Cada equipe teria uma van, um carro e uma moto à disposição, com motoristas adequados A ansiedade impediu que eu dormisse mais do que 4h nesta noite, e às 2h40min me acordei, pulei pra baixo do chuveiro, fui pro café da manhã - que, em função do evento, foi servido a partir das 3h - e às 3h40min já estávamos nas vans e nos carros. A chuva era fina na madrugada, mas foi engrossando e, na largada, caía forte; infelizmente, os 20 atletas de número 1 de cada equipe tiveram poucos torcedores assistindo ao início da corrida. No primeiro posto de troca a chuva apertou, as ruas da capital paulista começaram a dar sinal de enchente, os raios e trovoadas fizeram com que eu parasse pra pensar “Onde é que fui amarrar meu burrico?”. O trânsito começava a se manifestar e engarrafamento nascia antes do amanhecer. Era uma confusão de atletas indecisos entre ficar dentro das vans e dos carros ou sair na chuva e torcer para seus parceiros de equipe. Como corredora número 4, meu primeiro trecho foi uma parte da Via Anchieta, ao amanhecer e com chuvisco mais fraco. Como nossa equipe era a única composta 100% de mulheres (as demais tinham apenas 33,33% - 4 mulheres em equipes de 12), estávamos sempre nas últimas colocações, dando o máximo das pernas para conseguir acompanhar o ritmo da prova. A descida da serra foi linda, com alguns momentos de sol e mormaço. No percurso, a rotina era “come-hidrata-vaiprocarro-corre-sobenavan-hidrata-come-trocaroupa-descedavan-torce-sobenavan-descedavan-vaiprocarro-corre…”. Nos postos de troca rolava a parte social: fotos, conversas entre equipes, torcida; era o momento de fazer contatos, trocar experiências e se divertir. A passagem por Cubatão foi chocante, como puderam construir coisas tão horríveis no meio de um vale verde tão lindo??? Depois tivemos trechos de areia, terra, subidas e descidas, praias maravilhosas do litoral paulista, onde a floresta encontra o mar. Entre o penúltimo e o último trecho teve um percurso que foi feito de carro, já chegando perto de São Sebastião, onde terminamos o 1º dia, depois de percorrer os primeiros 193 km. Só faltavam 407 km!!! Imaginem a nossa equipe: 12 mulheres e mais uma técnica, dentro de uma van e de um carro. Coitados do Edu e do seu João, os motoristas!! Todas falando ao mesmo tempo, dizendo pra onde ir, onde parar, onde não parar, fofocando, trocando de roupa, rindo, gritando, enfim... aquela confusão!! Nos Nike Villages, montados em pousadas ou hotéis no caminho, havia tonéis com gelo, massagem, quartos para dormir e jantar de massas. Como nossa equipe sempre chegava mais tarde - na frente apenas da equipe Imprensa - era um corre-corre: fazer check in, colocar nome na lista de massagem, ir pro banho de gelo, fazer massagem, tomar banho, jantar, dormir. Na primeira noite nos deitamos às 23h, par acordar às 3h e começar tudo de novo. A largada de São Sebastião foi novamente com chuvisco. Seguimos pela Rio-Santos no dia mais longo da prova: seriam mais 221 km até Angra dos Reis. Ao longo de um visual deslumbrante, com alguns trechos acidentados que até de carro era complicado subir, os atletas correram, correram e correram. Foi um dia desgastante e, para nós da equipe Mulheres, um pouco desanimador, pois em muitos postos de troca já haviam retirado os tapetes de marcação do chip e a cronometragem era feita à mão. Depois, no final do dia as equipes estavam muito à frente, a equipe Imprensa muito atrás, e nos sentimos um pouco desmotivadas e isoladas. O mau-humor batendo, 12 mulheres começando a bater boca dentro da van. Em uma das trocas de percurso aproveitei para dar um mergulho e deixar o stress ser levado pelas ondas. A chegada no Hotel do Frade foi um alívio!! Fui direto pro gelo e, em função do horário, nem massagem deu pra fazer. Pelo jeito o local era bonito, mas chegamos depois das 21h, jantamos e fomos dormir, pois a saída no dia seguinte teria largada às 5h, portanto nem deu pra curtir o visual. Foi a largada mais bacana, saindo da praia em frente ao hotel, com clima de festa. Para compensar a chuva e os dias cinzentos, o sol apareceu com toda a força, mostrando que o dia não seria fácil. Além do calor, trechos com longas e íngremes subidas nos aguardavam, no que seria o dia mais difícil para todos. Muitos morros, trechos longos, sol escaldante e a única sombra era dentro dos veículos. Tive desidratação depois do meu 1º trecho do dia e procurei ficar na sombra, tomar muito isotônico e repor os sais. Ainda precisava correr meu último trecho do dia, de 7,4km, na Av. Brasil por volta das 13h. Avistei um corredor e pensava que fosse a Fuca, mas era um atleta da equipe Imprensa, que havia passado de nós. Logo atrás vinha ela, me passou a pulseira e, junto, aquele compromisso de não deixar as mulheres ficarem por último... Me senti no próprio inferno: avenida em obras, engarrafamento, caminhões, muito sol, poeira e um asfalto preto novinho, cuja temperatura, medida por um termômetro da ambulância de apoio, beirou os 55 ºC. Resultado: muitos corredores passaram mal, as ambulâncias não deram conta do recado, e lá se foi o motoqueiro que me acompanhava, dar apoio para um atleta de outra equipe, levando consigo minhas águas e me deixando sozinha. Os poucos metros que me separavam do Harry, da equipe imprensa, pareciam mais longos que os mais de 500km já percorridos desde São Paulo. Ao passar por ele, dei uma força e não olhei mais para trás. O dia havia terminado para mim, mas a equipe ainda tinha outros 20km para percorrer. Da van, avistei a Pedra da Gávea, linda e impressionante, de um ângulo que eu nunca tinha visto antes. Quem fechou o dia foi a Débora, em uma chegada triunfante na Barra, acompanhada por todas as outras da equipe. Havíamos completado 590km!!! Fizeram uma matéria especial das Mulheres Nike, que passou mais tarde em rede nacional. A última noite foi no Hotel Intercontinental, em São Conrado. Visual alucinante, ótima infra-estrutura e mais milhares de corredores que foram ao Rio participar da Human Race, a prova de 10km que fecharia o Desafio 600K. A noite foi um pouco mais calma, pois chegamos no hotel por volta das 19h e pudemos dormir mais. Para os atletas do Desafio, a largada foi às 7h40min, da Barra, todos os atletas correndo juntos. O trajeto foi difícil, pois as pernas sentiam o acúmulo dos cerca de 50km percorridos nos 3 dias anteriores, a um pace que variou entre 4min/km e 4,27min/km. Foi muito emocionante!! Apesar da equipe Mulheres Nike ter sido sempre a penúltima equipe a fechar o dia, a Cris Vaqueiro foi a 1a a terminar os 10km, com 38min, a Débora foi a 3a, com 40min, e eu fui a 4a ou 5a, com 43min. Na chegada tivemos massagem, coquetel e entrega dos troféus de participação e divulgação dos resultados. Em 1º lugar foi a equipe de Belo Horizonte, com 38h12min49s de prova, e em 2º lugar, a equipe de Curitiba, com 38h24min38s de prova. A galera da equipe de Porto Alegre fez uma belíssima prova, garantindo o 9º lugar, com 40h38min40s. Nós, Mulheres Nike, fechamos em 45h24min02s. Deixo aqui meus agradecimentos especiais ao meu técnico, Tarso Dellinghausen, que me apoiou desde o início e me preparou para encarar o Desafio; ao pessoal da Nike, principalmente Daniel e Christiano; ao Francisco, da Sportion, e outras pessoas que me indicaram e que eu nem conheço; ao Joca Macedo, que preparou minhas pernas e torceu por mim; às Mulheres Nike, pela amizade conquistada; aos meus pais a amigos que vibraram comigo!! ![]() Detalhes sobre o Desafio 600K podem ser conferidos no site www.nikecorre.com.br |
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